SENHOR ZÉ PELINTRA – UM HUMILDE FALANGEIRO DA LUZ
Falar de Zé Pelintra é dizer de aproximação e
recuo, acertos e esquivas, transgressão e perigos. É render-se a eloqüência do
não-dito, viajar pelas margens dos espaços suburbanos, encarar desafios.
Curvar-se a regras implícitas, renunciar aos esclarecimentos, até mesmo
desistir de apresentar estas notas de acordo com as normas acadêmicas. É
deixar-se guiar pelos volteios do objeto da pesquisa para, com ele, aprender a
ginga, a brincadeira, a duplicidade. (Monique Augras).
Um dia, conversando com o nosso amigo Marcos,
este nos pediu que fizéssemos uma matéria versando sobre o “enigmático e
incompreendido” Guia Espiritual Zé Pelintra. Na hora respondemos: putz – que
fria hahahaha! Falar sobre o senhor Zé Pelintra pode alegrar uns e desagradar
outros. Mas, fazer o que? Vamos nessa. Aqui, vamos colocar as versões
existentes sobre o senhor Zé Pelintra, para que cada um possa refletir,
analisar e aceitar aquela que tiver razão e bom senso, e não somente aquela que
o seu “achismo” acha correta. Quando se trata de fenômeno espiritual, temos que
utilizar a razão, para que não caiamos no ridículo de expor nossas tendências
inferiores, a pecha de manifestação mediúnica verdadeira. Mas, vamos lá:
Primeiramente vamos elucidar o que seria essa
tal “corrente de malandro” que esta se espalhando na Umbanda, advinda do Rio de
Janeiro, onde está inserido o Senhor Zé Pelintra. Serão apresentadas algumas
versões, a fim de que o leitor possa avaliá-las e de uma vez por todas,
entender quem é e o trabalho magnífico efetuado por essa entidade espiritual
maravilhosa.
Malandro – 1ª versão:
Para entendermos a confusão reinante dentro da
Umbanda, sobre as várias manifestações mediúnicas estereotipadas de “malandro”,
tendo como “malandro mór” o Senhor Zé Pelintra, temos primeiramente que
entender o que seria arquétipo (grego arché, antigo – é o primeiro modelo de
alguma coisa) no inconsciente coletivo.
Carl G. Jung sugeriu que pode existir um
inconsciente coletivo. Os mitos seriam como sonhos de uma sociedade inteira: o
desejo coletivo de uma sociedade que nasceu do inconsciente coletivo. Os mesmos
tipos de personagens parecem ocorrer nos sonhos tanto na escala pessoal quanto
na coletiva. Esses personagens são arquétipos humanos. Os arquétipos são impressionantemente
constantes através dos tempos nas mais variadas culturas, nos sonhos e nas
personalidades dos indivíduos, assim como nos mitos do mundo inteiro. Dominar
esses arquétipos dá um grande poder ao roteirista, são ferramentas úteis, como
um baú cheio de truques.
De posse do entendimento sobre o que seria o
inconsciente coletivo, vamos entender o porquê do surgimento arraigado no Rio
de Janeiro, da manifestação do Senhor José Pelintra como um “exemplo” de
malandro ou malandragem.
Essa figura de malandragem como meio de
subsistência, surgiu no Rio de Janeiro e para entendermos vamos ver o que nos
diz Zeca Ligiero:
O malandro não pode ser dissociado da cultura
carioca. Ao lado dos Orixás ioruba que chegaram ao panteão da macumba carioca
trazidos pelos baianos, expressão de paisagem essencial, a rigor, sem representação
antropomórfica, se ajuntam personagens históricos, sínteses de percursos
coletivos, emblemáticos, personas com contornos humanos, roupas e adereços,
como os Exus, Quilombolas quimbandeiros, revoltados e renegados contra o
sistema e contra a passividade dos seus, provocadores e vingativos. Ou então:
os malandros.
O terno branco do malandro. A dignidade do
negro subestimado e subalterno. A elegância de valores da tradição africana adaptada
a dúbia modernidade do bas-fond carioca. Estigmatizados ou quase herói, o
malandro transgressor e individualista tanto reflete quanto funda um caminho
coletivo, tornado santo pros seus e pros outros mito e referência. O malandro –
de sapato, terno e chapéu – não se veste como branco, é o negro que mostra sua
própria elegância, pois o malandro, tornado santo, não é apenas o que engana e
o que se apropria do que é do outro para seu proveito e projeto pessoal, mas o
que quer redefinir as regras de um jogo que lhe são injustificadamente
desfavoráveis.
Se o malandro das encruzilhadas
afro-ameríndias “não conseguiu estabelecer-se socialmente e impor a qualquer
grupo uma ordem peculiar”, seu arquétipo e arsenal mítico certamente perduram
no inconsciente do povo brasileiro, tanto em sua pulsão perversa – o
oportunista, o predador – quanto em suas outras potencialidades, com sua
postura de jogador e suas disposições e atributos de lutador refinado, de
artista da vida, de animador cultural, de arrimo na crise e, assim, de
protolíder comunitário.
Assim, poderemos agora entender, o porquê da
ênfase e da aceitação de espíritos “malandros”, que no imaginário do povo,
seriam nada mais nada menos que heróis populares, que com suas gingas e
expedientes, conseguem transpassar os limites da sociedade
cripto-escravocrática pondo-os frente a toda uma sociedade em processo de
identificação, a quem dotariam de uma identidade paradoxal. A camada social
mais carente busca novas referencias e novos mestres, justamente no momento
quando se faz possibilidade de uma nova ordem social que atende ao clamor das
ruas para além das evidentes limitações da “democracia brasileira”, e ressalta
a evidente inspiração que traz o caminho do Zé Pilintra.
Conclusão: O inconsciente coletivo “malandro”
está para a camada popular, como o herói, como aquele que vence as adversidades
do dia-a-dia mesmo tendo qualquer tipo de adversidade própria de quem nada tem
na vida. O “espírito de malandro” reflete arquetipicamente àquele que leva a
vida numa boa.
Mas, temos que entender que isso é tão somente
um arquétipo coletivo manifestado na psique humana, e é refletido nas
manifestações mediúnicas a título de animismo misturado com uma efetiva e
verdadeira incorporação mediúnica. Nesse momento, a psique do médium se põe na
frente da manifestação mediúnica, havendo uma simbiose onde o que se reflete é
tão somente um “teatro” muitas vezes necessário, pois tanto o médium como a
assistência somente vai dar credito àquela manifestação, se conseguir
visualizar o estereótipo, “fantasiado”, a fim de dar crédito, pois esta
visualizando o que ali se manifesta.
Precisamos entender que segundo a psicologia
analítica, ocorrem as manifestações “teatralizadas” nas incorporações na
Umbanda. Somente vamos atentar para o fato de que essas “teatralizações” fazem
parte das manifestações mediúnicas na Umbanda, obedecendo a um imperativo
espiritual, pois junta-se o animismo com a realidade espiritual, fazendo com
que os trabalhos mediúnicos umbandistas sejam acessíveis a todas as camadas
sociais, bem como aceitas naturalmente, pois fazem parte do mental coletivo
brasileiro.
Com o tempo, a figura do malandro tornou-se
símbolo marcante da cultura carioca, que o tem como um meio de sobreviver num
meio racista e difícil vivência.
Malandro – 2ª versão:
Vamos entender a questão da malandragem, pois
esta acontecendo um fato que merece a nossa atenção: Alguns médiuns e mesmo
sacerdotes umbandistas, estão “criando” uma linha de ação na Umbanda,
denominada “corrente de malandros”. Mas, o que seria essa corrente? Espíritos
de malandros????
Malandro: 1. Indivíduo
dado a abusar da confiança dos outros, ou que não trabalha e vive de
expedientes: velhaco, patife. 2. Indivíduo preguiçoso, madraço, mandrião. 3.
Gatuno, ladrão. 4. Individuo esperto, vivo, astuto, matreiro. 5. Que é
malandro. (Novo Dicionário Aurélio –
1ª edição – 9ª impressão – Editora Nova Fronteira).
Pela própria definição do dicionário, o malandro é sinônimo de um
individuo que não presta; que não se confia; que rouba; que vive à custa dos
outros; abusado, etc. Como podemos aceitar uma corrente espiritual formada por
indivíduos assim? Como podemos entrar num Templo Religioso, dedicado à
caridade, orações, orientações precisas calcadas no Evangelho Redentor, ou
seja, reformar a vida dos que freqüentam esse Templo, aconselhando-se com um
espírito de malandro? Analisem bem, e vejam a gravidade de certos médiuns
incautos “inventarem” uma corrente espiritual povoada de espíritos embusteiros,
ou mesmo abrirem a sua mediunidade para a manifestação de quiumbas que se
aproveitam da ignorância espiritual e material de alguns médiuns para assim,
poderem desqualificar uma corrente religiosa como a Umbanda. A coisa é grave.
Um espírito de luz com certeza, para nos dar um exemplo de vida, nos
contaria suas peripécias negativas quando encarnados, mas tão somente para nos
alertar do que não devemos fazer na vida. Jamais esse espírito de luz se
compraz com alegria, sempre nos dizendo que foi mulherengo; que brigava e dava
porrada pra todo lado; que chegou até a matar algum desafeto (e ainda por cima
dizendo isso com satisfação, como se fosse a coisa mais maravilhosa do mundo);
que era alcoólatra; que vivia de enrolar os outros; que vivia na jogatina; que
era feiticeiro e ai por fora. Se fosse um espírito de luz, sentiria vergonha de
ter praticado tais atos. Se fosse um espírito de luz, faria de tudo para nos
demover de tais atos. Se fosse um espírito de luz, nos convenceria a viver a
vida calcada no Evangelho Redentor.
Agora, o que observamos, são espíritos levianos, beberrões, que só
querem brincar, e não se preocupam com a nossa libertação interior, jamais nos
incitando á reforma íntima.
Imaginem só, vocês médiuns, trabalhando num terreiro onde estão esses
tais espíritos de “malandros” com toda sua gama de disparates, e ainda por cima
levam seus filhos para participarem dessas giras. Vejam que coisa linda seus
filhos estão aprendendo em sua religião:
·
Que ingerir bebidas alcoólicas abundantemente é normal, pois aprenderam vendo
um “espírito” que eles respeitam como guia espiritual, fazendo isso. Com
certeza quanto começaram a ingerir bebidas alcoólicas vão achar super normal,
pois a espiritualidade também o faz..
·
Que fumar é normal, pois também observam os tais “espíritos” fumando
desesperadamente.
·
Que falar palavrões é bonito, pois esses tais “espíritos” falam abundantemente
e todos à volta acham lindo e até dão risadas.
·
Observam os tais “espíritos” se portarem de maneira indecorosa e com certeza
vão repetir tais atos no seu cotidiano.
Isso é Espiritualidade Maior? Isso é educação? Isso é um Guia
Espiritual? Isso é Umbanda???
MAS AFINAL. QUEM É O SENHOR ZÉ PILINTRA?
Antes de mais nada, vamos entender uma coisa.
Todo Guia Espiritual militante na religião de Umbanda, com certeza teve vida
física na Terra. Assim, com certeza, também teve entreveios como todos nós
temos, vivenciando uma vida cheia de ilusões, acertos e desacertos. Pode ser
que um espírito quando encarando vivenciou uma vida cheia de engodos e erros,
mas, com certeza, para depois da morte poder vir até nós, através da
mediunidade redentora, teve erros que somente afetaram sua integridade física,
moral e espiritual, mas não feriu mortalmente o espírito imortal de ninguém. Se
algum ser vivente, viver uma vida de erros gravíssimos, com certeza, não
poderia estar entre nós como um Guia Espiritual, antes de, através de anos a fio,
se regenerar, para depois poder iniciar uma escalada evolutiva, a fim de se
fazer presente na mediunidade, como um Guia a aconselhar, abençoar e ensinar
preceitos espirituais superiores.
Por isso vamos encontrar varias entidades
espirituais na Umbanda, relatando seus erros e acertos, quando encarnados, mas,
não vamos generalizar. Com certeza, esses erros, como já dissemos
anteriormente, foram erros que somente atingiram quem o realizou, ou seja, sem
maiores danos, atendendo o que nos diz a máxima: ‘Fazei ao próximo, o que
quereis que voz façam”
Vamos dar as várias versões sobre o senhor Zé
Pilintra, que ainda, infelizmente é muito pouco compreendido em nosso meio.
Zé Pelintra – 1ª versão:
Observamos no decorrer dos anos, a
manifestação desta Entidade de Luz, de maneira que nos leva a muitas duvidas.
Ora vemos médiuns “incorporados” com o Exu Zé Pilintra; ora observamos
manifestações de entidades dizendo ser o Sr Zé Pilintra, mas nos relatando ser
um boêmio que nasceu no nordeste e migrou para o Rio de Janeiro, vivendo no
meio de prostitutas e malandros, em jogatinas, bebericando seus aperitivos
descontraidamente e morreu assassinado. Em outros ainda, diz ser um “digno”
representante dos malandros do Brasil. Meu Deus. Será?
Para dirimir tais “equívocos”, fomos pesquisar
sobre a origem desta Entidade de Luz, tão maravilhosa, e chegamos a tais
revelações:
O Sr Zé Pilintra nasceu na cidade de Alhandra,
município de Alagoas, divisa de Pernambuco. Alhandra é um dos berços do
Catimbó, culto originado da fusão do Catolicismo, Bruxaria Européia e
Pajelança.
Em conversações telefônicas com o delegado de
polícia e também com alguns Catombizeiros residentes em Alhandra, colhemos que
o Sr Zé Pilintra nasceu, viveu e morreu no Nordeste, e nunca se mudou para o
sudeste. Viveu uma vida digna e prestativa para a comunidade, com seus
conhecimentos no Catimbó.
Era procurado por muita gente de todas as
regiões e morreu com 114 anos, encontrando-se enterrado em um sítio no
município de Alhandra.
Vejam que foi uma alma caridosa, não era
alcoólatra (podia até bebericar como todos nós fazemos) e nem vivia no meio de
malandragem. Era um ser humano comum.
O que alguns médiuns incautos fizeram com a
manifestação mediúnica de uma Entidade tão iluminada? Será que não abriram seu
corpo mediúnico para a manifestação de quiumbas se fazendo passar pelo senhor
Zé Pilintra? Ou será que são médiuns exteriorizando suas mentes conturbadas
(arquétipo), utilizando o nome e a pretensa incorporação de uma entidade
espiritual, para bebericar, jogar conversa fora, promover namoricos, numa
alusão à malandragem existente em seus íntimos, pois dentro de um Templo
religioso terão a “compreensão e a autorização” para agirem desta forma, não
tendo medo de serem criticados.
Agora, uma coisa é certa: Muitos médiuns ao
longo do tempo observaram a “incorporação” da entidade conhecida por Zé
Pilintra em vários médiuns, e essas incorporações se davam (por vários motivos)
de maneira estranha, e esses médiuns gravaram em seus inconscientes àquela
maneira estereotipada de apresentação e quando estavam mediunizados por uma
entidade apresentando-se por Zé Pilintra, este também se apresenta da forma
arquétipica armazenada em seus inconscientes, portando-se de maneira errônea,
não condizendo com a realidade espiritual, ferindo a fenomenologia mediúnica
disciplinada. Isso é fato. Os médiuns deveriam se educar mediunicamente,
deixando suas mentes de lado, para que as entidades espirituais apresentem-se
com suas maneiras particulares de serem.
Também tivemos informações da existência no
Rio de Janeiro, de um individuo chamado Zé Filintra, que era morador e
freqüentador da malandragem nos morros cariocas, malandro, namorador, jogador,
boêmio respeitado em sua época. Agora, se existiu mesmo imaginem só: Com a
migração em massa de nordestinos para a então capital do Brasil (Guanabara),
entre todos, também vieram uma grande quantidade de Catimbozeiros que trouxeram
o culto ao senhor Zé Pilintra. De Zé Pilintra para Zé Filintra foi um pulo.
Misturou-se tudo no imaginário arquetípico brasileiro, chegando até os dias
atuais como vemos nas manifestações em terreiros.
Zé Pelintra – 2ª versão:
De acordo com Zeca Ligiero:
De acordo com as nossas pesquisas, Zé Pelintra
tornou-se famoso primeiramente no Nordeste, fosse como freqüentador assíduo
fosse já como uma das entidades dos Catimbós de Pernambuco, Paraíba, Alagoas ou
Bahia. Conta-se que, ainda muito jovem, era um caboclo violento e que brigava
por qualquer coisa, mesmo sem ter razão. No Nordeste, teria também adquirido a
fama de “erveiro”, um sábio curandeiro capaz de descobrir e receitar chás
medicinais, bem como de arrefecer com o emprego de folhas poderosas e da
benzedura com tabaco, os males provocados por feitiçaria.
A questão do seu aparecimento no Rio de
Janeiro não foi nunca esclarecida de forma convincente. Teria o Zé, a pessoa
física, que, segundo algumas fontes, atendia pelos nomes José dos Anjos e José
Gomes, realmente migrado para esse estado na década de 1920?
Alguns autores afirmam categoricamente que
não, e juram que ele foi enterrado no famoso cemitério dos catimbozeiros em
Pernambuco. Outros, porém, respaldados pelo relato de muitos pontos cantados em
uso nos terreiros de Umbanda atualmente, evocam passagens de sua saga, ainda em
vida, elas ruas do Rio de Janeiro boêmio do começo do século XX.
Nenhuma prova concreta sustenta essas versões,
que nem por isso deixam de ser verdadeiras, já que professadas por muitos,
compondo uma historia múltipla de um mito.
O fato é que a figura mística de Zé Pilintra,
gerada a principio nos Catimbós do Nordeste, adquire imensa popularidade no Rio
de Janeiro.
O mais antigo registro de Zé Pilintra no
Catimbó foi feito pela expedição MPF no Catimbó de Mestre Lourentino da Silva,
em Itabaiana, no Estado da Paraíba, no dia 5 de maio de 1938.
Mas o tempo passou e, segundo relatos de seus
devotos, seu Zé Pilintra tornou-se um famoso malandro da zona boêmia do Rio de
Janeiro nas primeiras três décadas do século XX, período de desenvolvimento
urbano e industrial que transformou profundamente a vida das populações
afro-descendentes.
A diáspora afro-baiana, acompanhando o fluxo
migratório em direção ao Rio, expandiu-se a partir da Gamboa e da zona
portuária da cidade. As primeiras favelas proliferaram, empurrando para os
morros os migrantes dos antigos cortiços derrubados para a Reforma Passos. As
primeiras escolas de samba foram criadas, transformando o carnaval carioca em
uma festa afro-brasileira.
Nesse contexto, Zé poderia ser qualquer
habitante do morro, como os numerosos sertanejos que vieram para a capital de
República em busca de melhores oportunidades. Como muitos deles, teria
conseguido criar a fama, por sua coragem e ousadia, obtendo ampla aceitação na
pequena África do Rio, bem como nos bairros do Estácio e da Lapa, ou mesmo na
então aristocrática comunidade de Santa Teresa, onde teria tido final trágico.
Contam alguns que seu Zé era um grande
jogador, amante da vida noturna, amigo das prostitutas, exímio capoeirista,
sambista de rara inspiração, um verdadeiro bamba.
Em relação à morte de Zé Pilintra, os autores
discordam sobre a autoria do crime. Teria ele sido assassinado por uma mulher,
antigo desafeto, ou por outro malandro igualmente perigoso? Em ambos os casos,
afirma-se, ele fora atacado pelas costas, uma vez que, pela frente, o homem era
mesmo imbatível.
Zé Pelintra – 3ª versão:
Segundo Pai José da Bahia
Zé Pilintra Valentão
Qualquer um que se aventure a traçar a
trajetória de um mito, certamente descobrirá que em torno dele existe um sem
números de histórias, muitas delas inverossímeis, entretanto, impossíveis de
refutação. O mito sempre se confunde com a realidade e, deste modo, ninguém
pode contrariar a fé dos crentes, sob pena de alienar-se do mundo
vibrante e mágico que envolve as crenças populares.
Sobre o Zé Pilintra, existem várias histórias
contadas de boca em boca, tão cheias de ousadia e mistério quanto as de outros
mitos nordestinos tais como o cangaceiro Lampião e sua parceira Maria Bonita; o
bandido Cabeleira; o cangaceiro Corisco e tantos outros.
Todos que conhecem ou ouviram falar de Zé
Pilintra concordam ao menos em um ponto: ele era um pernambucano
“cabra-da-peste” que não levava desaforo pra casa, freqüentava os cabarés da
cidade de Recife, defendia as prostitutas, gostava de música, fumava
cigarros de boa qualidade e apreciava a bebida.
Contam que nasceu no povoado de Bodocó, sertão
pernambucano próximo a cidadezinha que leva o nome de Exu, à qual segundo o
próprio Zé Pilintra quando se manifestava numa mesa de catimbó, foi batizada
com este nome em homenagem, já que sua família era daquela região antes mesmo
de se tornar cidade.
Fugindo da terrível seca de meados do século
passado, a família de José dos Santos rumou para a Capital Recife em busca de
uma vida melhor, mas o destino lhe roubou a mãe, antes mesmo que o menino
completasse 3 anos e, logo a seguir se pai morreu de tuberculose . José
dos Anjos ficou órfão e teve que enfrentar o mundo juntamente com seus quatro
irmão menores. Cresceu no meio da malandragem, dormindo no cais do porto e
sendo menino de recados de prostitutas. Sua estatura alta e forte granjeou-lhe
respeito no meio da malandragem. Não apartava nunca de uma peixeira de seis
polegadas de aço puro que ganhara de um marinheiro inglês com o qual fizera
amizade.
Conta-se que, certa vez, Zezinho, como também
era conhecido, teve que enfrentar cinco policiais numa briga no cabaré da
Jovelina, no bairro de Casa Amarela.
Um dos soldados recebeu um corte de peixeira
no rosto que decepou-lhe o nariz e parte da boca. Doze tiros foram disparados
contra Zezinho, mas nenhum deles o atingiu. Diziam que ele tinha o corpo
fechado.
Naquele mesmo evento, Zezinho conseguiu
desvencilhar-se dos soldados, ferindo-os gravemente, um dos quais veio a
falecer dias depois. Antes que chegassem reforços, Zezinho já tinha fugido
ileso, indo se esconder na casa do coronel Laranjeira, um poderoso usineiro
pernambucano, protetor do rapazote. Contava ele, naquela ocasião com 19 anos de
idade e por este fato passou a se chamar Zé Pilintra Valentão. Este apelido foi
dado pelos próprios soldados da polícia pernambucana. Pelintra significa
pilantra, malandro, janota etc.
Tempos depois de sair do esconderijo, Zezinho
agora apelidado de Zé Pelintra Valentão, passou a fazer fama na cidade de
Recife. Embora fosse querido por todos que o conheciam, não perdia uma briga e
sempre saía vitorioso.
Gigolô inveterado, tinha mais de vinte amantes
espalhadas pela cidade, das quais obtinha dinheiro para sua vida boêmia. Sempre
vestido em impecáveis ternos de linho branco, camisas de cambraia adornadas por
uma gravata de seda vermelha e um lenço branco na algibeira do paletó; na
cabeça um chapéu panamá e os sapatos de duas cores compunham-lhe o tipo. Não
raro poder-se-ia encontrá-lo sobraçando um violão pequenino, indo ou vindo das
serestas, dos cabarés e botequins que freqüentava. Nunca lhe faltava dinheiro
no bolso, nem amigos para mais um trago.
Aos domingos, todos podiam ver Zé Pelintra
Valentão entrando na Igreja Nossa Senhora do Carmo, no centro de Recife, para
fazer suas orações. Dizia-se também devoto de Santo Antônio, lá estava o Zé
Pelintra Valentão, impecável com seu terno de casimira, pronto para a procissão
pela Avenida Conde da Boa Vista.
A morte de Zé Pelintra Valentão ocorreu
misteriosamente. Conta-se que aos 41 anos, ainda muito moço, Zé amanheceu
morto, sem nenhum vestígio de ferimento externo. Soube-se, entretanto, que
Zulmira, uma das suas amantes, tinha feito um “trabalho” para ele. Tinha um
filho, que Zé Pelintra recusava registrar como dele. Zulmira tinha um ciúme
doentio de Zé Pelintra, e por causa dela ele já estivera envolvido em muitas
brigas e confusões. Ela queria Zé Pelintra só pra si. Assim, contam que lhe
dera um prazo de sete semanas para que ele deixasse as outras amantes e fosse
para a sua casa no bairro de Tamarineira. Zé Pelintra não foi e acabou sendo
envenenado. Zulmira, depois da morte dele, sumiu de Recife e nunca mais se
soube dela nem do filho.
Zé Pelintra – 4ª versão:
Quem foi Zé Pilintra
Falemos do grande Zé Pilintra...
Antes de começar a discorrer sobre o que se conhece desse malandro
incorrigível, mulherengo, birrento, arruaceiro, mas de um coração enorme, é
preciso que se entenda que toda entidade, tem uma história, uma cultura, pois
foi tão humano quanto nos quando encarnada, após o desencarne e a conseqüente
espiritualização, poderá ocorrer que sua manifestação venha a se dar em outros
centros regionais, diferentes do que consta em sua biografia humana e assim
quando manifestada, poderá demonstrar outras culturas, que não as de sua
procedência humana. Isso quer dizer que a mesma entidade poderá manifestar-se
diferentemente em lugares diferentes, sem que isso implique em mistificação.
Tal fato acontece porque, pela necessidade do ingresso nas falanges
espirituais, afim de prestar seu trabalho nesta nova roupagem, os espíritos,
agora desencarnados, aproximam-se desta ou daquela falange, por simpatia ou
determinação superior, mas guardam características bastante marcantes de suas
existências materiais. Melhor entendendo:
Zé Pelintra, tem como característica principal, a malandragem, o amor
pela noite. Tem uma grande atração pelas mulheres, principalmente pelas
prostitutas, mulheres da noite, além de outras características que marcam a
figura do malandro. Isso quer dizer que em vários lugares de culturas e
características regionais completamente diferentes, sempre haverá um malandro.
O malandro de Pernambuco, dança côco, xaxado, passa a noite inteira no forró;
No Rio de Janeiro ele vive na Lapa, gosta de samba e passa suas noites na
gafieira. Atitudes regionais bem diferentes, mas que marcam exatamente a figura
do malandro. Isso bem explicado, vamos conhecer mais de perto esse grande
camarada.
Conheçam essa maravilhosa entidade:
“SEU ZÉ”
José Gomes da Silva, nascido no interior de Pernambuco, era um negro
forte e ágil, grande jogador e bebedor, mulherengo e brigão. Manejava uma faca
como ninguém, e enfrentá-lo numa briga era o mesmo que assinar o atestado de
óbito. Os policiais já sabiam do perigo que ele representava. Dificilmente
encaravam-no sozinhos, sempre em grupo e mesmo assim não tinham a certeza de
não saírem bastante prejudicados das pendengas em que se envolviam.
Não era mal de coração, muito pelo contrário, era bom, principalmente
com as mulheres, as quais tratava como rainhas.
Sua vida era a noite, sua alegria as cartas, os dadinhos a bebida, a
farra, as mulheres e por que não, as brigas. Jogava para ganhar, mas não
gostava de enganar os incautos, estes sempre dispensava, mandava-os embora,
mesmo que precisasse dar uns cascudos neles. Mas ao contrário, aos falsos
espertos, os que se achavam mais capazes no manuseio das cartas e dos dados, a
estes enganava o quanto podia e os considerava os verdadeiros otários.
Incentivava-os ao jogo, perdendo de propósito quando as apostas ainda eram
baixas e os limpando completamente ao final das partidas. Isso bebendo
Aguardente, Cerveja, Vermouth, e outros alcoólicos que aparecessem.
Esta entidade andou pelo mundo, suas manifestações apresentam-se em
todos os cantos da terra. A pouco teve-se notícia pelos diários, de uma médium
que o incorporava nos Estados Unidos.
No Rio de Janeiro aproximou-se do arquétipo do antigo malandro da Lapa,
contado em histórias, músicas e peças de teatro. Alguns quando se manifestam se
vestem a caráter. Terno e gravata brancos. Mas a maioria, gosta mesmo é de
roupas leves, camisas de seda, e justificam o gosto lembrando que a seda, a
navalha não corta. Bebem de tudo, da Cachaça ao Whisky, fumam na maioria das
vezes cigarros, mas utilizam também o charuto. São cordiais, alegres, dançam a
maior parte do tempo quando se apresentam, usam chapéus ao estilo Panamá.
E existem muitas outras versões, tornando-se
difícil um reconhecimento oficial sobre essa entidade espiritual.
Conclusões:
Veja bem o quanto se torna difícil ter uma
certeza de quem realmente foi, onde viveu, como viveu e onde desencarnou o
Senhor Zé Pilintra. Mas não vamos nos ater em histórias, muitas vezes contadas
com romantismos, mas quase sempre enaltecendo a malandragem e os feitos
desonestos e violentos.
Vamos analisar o que realmente seria um
espírito de luz, sob a visão da ciência espiritual, a fim de conhecermos a
atuação verdadeira de um Guia Espiritual, a fim de dirimirmos nossas dúvidas
sobre a presença verdadeira do Senhor Zé Pelintra incorporado, e se é aceitável
a presença de “espíritos de malandros” atuando dentro de uma casa de oração
umbandista. Com isso teremos uma noção do que estamos incorporando e mesmo os
espíritos que temos ao nosso lado. Lembre-se que semelhantes atraem
semelhantes.
“Não creiais a todo espírito, mas primeiro
provai se ele é vindo de Deus” Allan Kardec.
Trecho extraído do livro:
AS HIERARQUIAS ESPIRITUAIS DE TRABALHO NA UMBANDA – FORMAS DE APRESENTAÇÃO E
ATUAÇÃO DOS GUIAS ESPIRITUAIS
NA UMBANDA – no prelo